Análise de Dom Casmurro, de Machado de Assis


Características de Machado de Assis
  • Frases curtas.
  • Conversa com o leitor.
  • Análise psicológica  (o autor focaliza as tensões vividas pelos personagens principais, seus medos e conflitos)
  • Análise dos valores sociais (os valores que a sociedade cria para justificar sua própria existência)
  • Pessimismo (descrença nos indivíduos e na organização social)
  • Ironia
  • Refinamento na linguagem (culta)
  • As personagens realistas apresentam mais defeitos do que qualidades
  • Destaca-se as temáticas do adultério, dos interesses econômicos, da ambição desmedida, da dissimulação e da vaidade etc.
  • O estilo não é linear de Machado de Assis, como nos demais realistas, mas apresenta-se digressivo, paródico e metalinguístico.

Um soneto para entrarmos no clima da obra...
O Ciume - Bocage 
Há um medonho abismo, onde baqueia
A impulsos das paixões a Humanidade;
Impera ali terrível divindade,
Que de torvos ministros se rodeia: 
Rubro facho a Discórdia ali meneia,
Que a mil cenas de horror dá claridade;
Com seus sócios, Traição, Mordacidade,
Range os dentes a Inveja escura e feia: 
Vê-se a Morte cruel no punho alçando
O ferro de sangüento ervado gume,
E a toda a natureza ameaçando: 
Vê-se arder, fumegar sulfúreo lume...
Que estrondo! Que pavor! Que abismo infando!...
Mortais, não é o inferno, é o Ciúme!

 PERSONAGENS

Bentinho
  • Dom Casmurro é o apelido de Bento Fernandes Santiago, filho de Dona Maria da Glória Fernandes Santiago e de Pedro Albuquerque Santiago. Nascido em 1842, teve a infância marcada pela morte do pai e os carinhos excessivos da mãe. Foi uma criança e um adolescente sem muita iniciativa, que buscava apoio na fantasia.
  • Era  um  menor que Capitu. Revelava-se  como  um  rapaz rico,  mimado  por D. Glória e, talvez por isso, não apresentasse o mesmo espírito vivaz e a iniciativa de Capitu.
  • Bento não pretendia ser padre como determinava sua mãe, sua intenção era casar-se com Capitu, sua amiga de infância. 
  • Ao virar um homem, muitos apontam a semelhança com  o pai:
“(...)  sim tem alguma coisa, os olhos, a disposição  do rosto.   É o  pai  um  pouco  mais moderno, concluiu por chalaça”.
  • Aos 21 anos, formou-se em Direito em São Paulo. Terrivelmente ciumento, acabou por destruir seu casamento. Na velhice, cabeça cheia de ruminação, solitário, escreve suas memórias na tentativa de restaurar o passado.

Capitu
  • Capitu é o apelido de Capitolina Pádua, filha de João Pádua (Tartaruga) e de Fortunata Pádua. Nascida em 1843, é a companheira de infância de Bentinho, pois mora na casa ao lado.
  • Na adolescência já dá mostras da sua personalidade forte, cheia de coragem e iniciativa.  
  • Muito curiosa e atrevida, sabia bem o que queria. 
  • Era mais mulher do que Bentinho era homem.  
  • Seus olhos centralizavam toda a força da beleza e da personalidade: “Olhos de ressaca”, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.
  • É a paixão da vida de Bentinho e motivo do seu desespero. 
  • Depois da separação, nenhuma outra mulher foi igual a Capitu para ele “Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada” , olhos que guardarão – para sempre – o seu enigma


Dona Glória
Mãe de Bentinho, mulher muito religiosa, fica viúva muito cedo (31 anos). Aos 42, ainda era bonita e jovem. Muito apegada ao passado, principalmente ao marido morto. Mãe extremosa, é considerada “uma santa”.
Minha mãe era boa criatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava trinta e um anos de idade, e podia voltar para Itaguaí. Não quis; preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado.

"Ora, pois, naquele ano da graça de 1857, D. Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós, eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia a touca branca de folhos."

José Dias
O agregado, era um parasita da família de Bentinho. Sua mania era usar superlativos para encobrir as suas fracas ideias. Vivia de bajular a todos da família e permanece ali até a morte. Seus olhos são fugidios.
"Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí, e eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um Manual e uma botica. Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava, e não quis receber nenhuma remuneração. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo, com pequeno ordenado.
Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. Também se descompunha em acionados, era muita vez rápido e lépido nos movimentos, tão natural nesta como naquela maneira. Outrossim, ria largo, se era preciso, de um grande riso sem vontade, mas comunicativo, a tal ponto as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, toda a pessoa, todo o mundo pareciam rir nele. Nos lances graves, gravíssimo."



Tio Cosme
Advogado, viúvo, vivia com a irmã D. Glória. Era gordo, pesadão e tinha olhos dorminhocos.
Formado para as serenas funções do capitalismo, tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. Tinha o escritório na antiga rua das Violas, perto do júri, que era no extinto Aljube. Trabalhava no crime.

"Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório. O preto que a tinha ido buscar à cocheira, segurava o freio, enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais, dava o último surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a besta partia a trote."

Prima Justina

Era prima de Dona Glória. Ao contrário da mão de Bentinho ela era uma pessoa muito egoísta, ciumenta e intrigante. Como Tio Cosme também era viúva, e segundo as palavras do narrador: 
"vivia conosco, por favor, de minha mãe, e também por interesse", "dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro".


Pádua
O “Tartaruga”, era baixo e grosso, de pernas e braços curtos e costas abauladas. Funcionário público extremamente preocupado com o “status”, tinha casa própria comprada com o dinheiro de loteria.
"Pádua era empregado em repartição dependente do ministério da guerra. Não ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata. Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que menor, era propriedade dele. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria, dez contos de réis. A primeira ideia do Pádua, quando lhe saiu o prêmio, foi comprar um cavalo do Cabo, um adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpétua de família, mandar vir da Europa alguns pássaros, etc.;"
 D. Fortunata
  • É a mãe de Capitu, mulher econômica, ajudava a controlar os gastos da casa. 
  • Era alta, forte e cheia como a Capitu 
"...esta D. Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa, em pé, falando à filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros, a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa, e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. Pádua hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha mãe, a quem D. Fortunata pediu auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida do Pádua."
Pe. Cabral
  • Velho amigo da família de D. Glória, companheiro de jogo de Tio Cosme, professor das primeiras letras de Bentinho. 
  • Homem de boas qualidades e um defeito: a gula, adorava comidas finas e raras.





Escobar
Ezequiel de Sousa Escobar é o melhor amigo de Bentinho dos tempos de Seminário. Era esbelto, olhos claros, dulcíssimos, sempre “ouvia, espetando-me os olhos”, “olhos policiais a que não escapam nada”.  Misterioso, reflexivo, acaba tornando-se amigo da família. Depois de sair do seminário, meteu-se com comércio e casou-se com Sancha.
"Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos; assim os definiu José Dias, depois que ele saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. Nisto não houve exageração do agregado. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente, era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito, de quando em quando, e veio a perdê-lo, desde que um de nós lho notou, um dia, no seminário; primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos."


Sancha
Era amiga e companheira de colégio de Capitu, filha de Gurgel, comerciante de objetos americanos que “era viúvo e morria pela filha”
Não era feia e se vestia de maneira elegante. Casou-se com Escobar e teve com ele uma filha. Uma noite, após revelar um segredo a Bentinho, os olhos de Sancha “não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra coisa”.



Ezequiel
“o filho do homem”  tinha nos olhos, em criança, uma expressão esquisita. Tudo corria para ver e ouvir. Filho de Bentinho e Capitu, torna-se, por sua aparência, objeto das suspeitas de adultério da mãe. 
Criado na Suíça, volta ver o pai já adulto. Morre de febre tifóide numa viagem de estudos a Jerusalém.





FOCO NARRATIVO ou PONTO DE VISTA
  • A história é narrada na 1ª pessoa, ou seja, por um narrador-personagem (Bento Santiago – Dom Casmurro), que deseja ao contar sua própria história unir as duas pontas de sua vida.
  • Característica comum em seus textos em 1ª pessoa, Machado de Assis apresenta um narrador hipotético e que vivencia seus grandes problemas.
  • A narrativa é  unilateral, ou seja só temos um ponto de vista, o que nos faz questionar a veracidade dos fatos contados pelo narrador no que diz respeito à culpabilidade da esposa(Capitu) quanto à acusação de adultério.

Dom Casmurro apresenta uma narrativa carregada de recalque, da imagem de um homem inseguro, delirante, com um ciúme doentio e cheio de ressentimentos
O Bentinho escritor  aparece tanto falando do ato de escrever, desta “sarna de escrever [...], que não desprega mais”, como do compromisso de ser ser sincero e confessar “tudo o que importa à minha história”

Dono absoluto da responsabilidade narrativa, Bentinho torna-se réu e advogado de defesa respectivamente, instaurando a ambiguidade e acentuando a natureza relativa das coisas. A vida imita a arte e a arte imita a vida.

Através de um discurso ordenado e lógico, procura resolver sua angústia existêncial. Depois de persuadir a si, que persuadir os outros da sua verdade. 

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. 

Ao tentar atar as duas pontas da vida e restaurar a velhice  à adolescência, o narrador deseja retocar  um quadro já preso ao passado. Para isso, ele finge o presente tentando evadir-se através da memória.

Neste drama de autoconhecimento,  Bentinho se fraciona , dividido em partículas de impressões sobre os outros, apela para a colaboração de todos da sua memória, inclusive a nossa, os leitores.

Esse  “eu” ambivalente que busca um sentido para a existência parece não alcançar seu objetivo ao fechar a narrativa amargamente cético: 

E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destinoque acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!


“DO TÍTULO”
“Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que lhes dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores: alguns nem tanto”.

  • Narrador que adota a tática da dissimulação, tentando “suavizar” a sua imagem diante do leitor
CASMURRO: adj. 
1. diz-se de indivíduo teimoso, obstinado, CABEÇUDO. 
2. Indivíduo fechado em si mesmo, ensimesmado, sorumbático.
             (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, p. 644).

Ler o capítulo 2 “Do Livro” 

METALINGUAGEM
Agora   que   expliquei  o  título,  passo  a escrever   o  livro.    Antes   disso,  porém, digamos  os  motivos  que  me põem a pena  na mão. 

A palavra metalinguagem é composta por  metá – prefixo grego, que tem os seguintes significados: mudança, além, transcendência, reflexão crítica sobre. Metalinguagem é, basicamente, a linguagem sobre a linguagem
A metalinguagem pressupõe uma leitura relacional, pois estabelece relações a vários sistemas de signos. Um dicionário é, por excelência, um livro metalinguístico, pois seu objetivo é explicar a própria linguagem. Um livro sobre literatura e arte em geral é um livro metalinguístico, pois a linguagem-objeto é a obra de arte.

Machado de Assis utiliza-se da metalinguagem, ao chamar atenção sobre o seu próprio texto, que questiona seu fazer literário, que desperta o leitor / interlocutor para a enunciação do que escreve. 

No primeiro capítulo, o narrador (não o autor, Machado, mas o personagem Bento Santiago) explica seu apelido “Dom Casmurro” que lhe fora dado por um poeta num trem, pois Bento cochilava enquanto o rapaz declamava seus versos: 

Outro momento metaliguístico claro é no Cap. LX quando Bento relata a sua tentativa de escrever um soneto
(...) Assim, na cama, envolvido no lençol, tratei de poetar. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia, pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em versos as minhas tristezas, como ele dissera as  suas no claustro. Decorei  bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis; francamente, achava-o bonito, e ainda agora não parece mau: 
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!

EXERCÍCIO
Agora vamos treinar a escrita sobre a obra. 

Redija um parágrafo dissertativo EXPLICANDO como a metalinguagem é usada em Dom Casmurro, de Machado de Assis. Exemplifique com elementos da obra.

Tempo: 20 min.


INTERTEXTUALIDADE
Intertextualidade  acontece quando há uma referência explícita ou implícita de um texto em outro. Também pode ocorrer com outras formas além do texto, música, pintura, filme, novela etc. Toda vez que uma obra fizer alusão à outra ocorre a intertextualidade.

A intertextualidade mais forte em Dom Casmurro é com a tragédia Otelo, o mouro de Veneza de Shakespeare.

“Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio de minha vida.(...) Agora é que eu ia começar a minha ópera”.

"EXPLICAÇÃO DE MARCOLINI"
 “A vida é uma ópera e uma grande ópera. Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de grande futuro, que aprendeu no conservatório do Céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio de sua eternidade. Satanás levou o manuscrito para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros,- e acaso para reconciliar-se com o céu- compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. (...) Até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu que a ópera fosse executada, mas fora do Céu. Criou-se um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos”.   
“- Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
  “Foi talvez um mal esta recusa. Dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. (...) Tudo é música, meu amigo”.  
“Que é demasiada metafísica para um só  tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados. Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, QUE É MUITA VEZ TODA A VERDADE, mas porque minha vida se casa bem à definição”.  

EXPLICAÇÃO PARA A VIDA:
 Deus - livro, FORMA; 
 Satã - música, CONTEÚDO
 mundo = “sistema de erros” 
(Natureza, das Memórias Póstumas de Brás Cubas)
 Bento deixa claro que escreve do jeito que QUISER; relativista - representante típico do século XIX - satisfaz-se com a sua própria versão da verdade.
 Boas ações = más ações (Humanitismo)

“- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que  roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos”. (Cap. XVII, “Os Vermes”).

PESSIMISMO: VIDA = MORTE; verme rói livros e corpos; 
INDIFERENÇA; o resultado é sempre o mesmo, e a vida pode se fazer através da morte, da destruição (“Sou tua mãe e tua inimiga”).
O MAL faz parte do BEM, a MORTE faz parte da VIDA (Bento morre e dá lugar a Dom Casmurro).


A vida é uma ópera.

Ópera é um espetáculo teatral e musical ao mesmo tempo; é uma representação alegórica dos conflitos do desejo humano.

 A obra Dom Casmurro é fundada sobre três grandes motivos: a tragicidade, a simbologia e o ceticismo irônico.  O resultado dessa mistura é um texto pontuado de ternura, remorso, perplexidade; um texto construído de memória, imaginação e fantasia; enfim um texto instigante feito de palavras e silêncios.

OTELO

  • A tragédia de Shakespeara, Otelo, o Mouro de Veneza, foi estrita 1603. 
  • A história gira em torno de quatro personagens: 
    • Otelo (um general mouro que serve o reino de Veneza), 
    • sua esposa Desdêmona, 
    • seu tenente Cássio, 
    • seu sub-oficial Iago 

O OTELO BRASILEIRO
Santiago: Santo + Iago
Bentinho é Otelo e seu próprio Iago

“Eu, leitor, amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuar..."

EXERCÍCIO
Questão 17 - Na obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, ao longo da narrativa aparecem várias citações do drama Otelo, de Willian Shakespeare. Além disso, para muitos críticos o romance machadiano é um “Otelo à brasileira”. A partir do ponto de vista temático, redija um parágrafo COMPARANDO a tragédia de Shakespeare com o romance de Machado de Assis.

Tempo: 20 min


O CIÚME


O Verme



Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mima,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento.

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.

(Machado de Assis, Falenas, 1870)





O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos.

Em relação ao ciúme a pergunta é: Se o Bentinho da casa de D. Glória já continha dentro de si o esquisitão do Engenho Novo?

O leitor é a testemunha que acompanha a luta entre o amor e o ciúme pelo domínio do coração de Bento Santiago, sendo o ciúme o grande vitorioso.

O personagem-narrador, Bento Santiago, chama a si mesmo de “Otelo”, porém assemelha-se mais ao estilo dissimulado de Iago que ao apaixonado Otelo.

Logo no primeiro capítulo, o narrador tenta evitar que o leitor  busque o significado no dicionário e, talvez assim, não possa achar que a definição padrão antiga (aquele que é teimoso) se aplique melhor ao narrador.

Bentinho não apresenta nada de guerreiro, pelo contrário, é até covarde, como percebemos logo no início da leitura: escondido atrás da porta da sala de estar, espionando.

Sua Desdêmona é Capitu, que tem a dignidade e o orgulho de uma dama bem-nascida, e um entendimento da vida muito além de sua idade – maior até que o da veneziana amada de Otelo.

Pode-se dizer que José Dias, em Dom Casmurro, assim como Iago, em Otelo, desperta o ciúme em Bentinho.

José Dias, em uma de suas visitas ao seminário, é interrogado por Bentinho a respeito de Capitu e responde que ela está alegre como de costume, adicionando que ela ainda conseguiria arranjar um dos rapazes da vizinhança para casamento. Nesse momento o vago sentimento de suspeita transforma-se em ciúme definitivo.

Desse ponto em diante o Iago passa a ser Bento, pois começa a sentir ciúmes de Capitu sob qualquer pretexto.

No romance, pode-se dizer que o tema é mais o ciúme que o adultério. 

Por que nesta análise não considero que a questão central é o adultério? Porque não sabemos (nem saberemos) se Capitu o traiu. 

O Bruxo do Cosme velho criou um enredo cheio de ambiguidades, dando ao desavisado leitor sinais de que de fato Capitu poderia ter traído Bentinho, mas este, contando sua própria história e sendo tão frágil, também pode ser um ciumento psicótico. 

Dom Casmurro, então, é o resultado de um exercício de escrita fantástico, pois até o fim da humanidade se discutirá a os argumentos do narrador-marido. 

O ENREDO

  • A promessa de D. Glória
  • Bentinho foi educado em casa pelo Padre Cabral
  • Capitu sua única amiga  (família pádua)
  • A denúncia de José Dias
  • O episódio do muro 

O NAMORO 

Inscrição no muro- confirmação - chegada de Pádua - Capitu apaga os nomes e finge brincar

“E séria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto é naturalmente sério; eu ainda estava sob a ação da entrada de Pádua, e não fui capaz de rir, por mais que devesse fazê-lo, para legitimar a resposta de Capitu. Esta, cansada de esperar, desviou o rosto, dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. E nem assim ri. Há coisas que só se aprendem mais tarde; é mister nascer com elas para fazê-las cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde”

 Astúcia e “máscara” de Capitu x honestidade de Bentinho
 Referência ao Casmurro: aprendeu a arte da dissimulação (encontro com o Poeta).


O BEIJO
Capitulo XXXIII


IDÉIAS
  • Os planos para evitar o seminário
  • Os mirabolantes planos de Bentinho
  • O plano de Capitu
  • O sonho de José Dias
O PLANO DE CAPITU
“-Se eu fosse rica, você fugia, metia-se no paquete e ia para a Europa”.
“Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não aos saltos, mas aos saltinhos”.
“- Ele (José Dias) gosta muito de você. Não lhe fale acanhado. Tudo é que você não tenha medo, mostre que há de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que pode. (..) ele, tendo de servir a você, falará com muito mais calor que outra pessoa. (..) diga-lhe que está pronto a estudar leis em São Paulo.
(Capitu) repetiu os termos propostos, e insistia em que pedisse com boa cara, mas assim como quem pede um copo de água à pessoa que tem obrigação de o trazer. Conto estas minúcias para que melhor se entenda aquela manhã de minha amiga; logo virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia, como no Gênesis, onde se fizeram sucessivamente sete. ”


A RELIGIOSIDADE
“-Prometo rezar mil padres-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário.
“A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. A última foi de duzentos padres-nossos e duzentas ave-marias, se não chovesse certa tarde de passeio a Santa Teresa. Não choveu, mas eu não rezei as orações. (...) - Mil, mil, repeti comigo. (...) Mil, mil, mil (...) Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam emprenhar-me outra vez a alma”...

 Bentinho é relativista: cultua um Deus particular- é a INTENÇÃO que importa, não a AÇÃO
Caso com Capitu = “missa nova”
Cristianismo de Bentinho = Humanitismo de Quincas Borba
 forma de justificar as suas ações sem alterá-las, justificar a SUA VISÃO DA VIDA (verossimilhança= verdade).  
Dona Glória: uso da religião como forma de “guardar” o filho para si.


PROCISSÃO: BENTINHO, JOSÉ DIAS E PÁDUA
“Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha, mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento; para tocha qualquer pessoa servia. Foi ele mesmo quem contou e me explicou isto, cheio de uma glória pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja; era a segunda vez do pálio, tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. E nada! Tornava à tocha comum, outra vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo cargo... Quis ceder-lhe a vara; o agregado tolheu-me esse ato de generosidade, e pediu ao sacristão que nos pusesse, a ele e a mim, com as duas varas de frente, rompendo a marcha do pálio. (...) Quando me vi com uma das varas, passando pelos fiéis, que se ajoelhavam, fiquei comovido. Pádua roía a tocha amargamente. É uma metáfora, não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação de meu vizinho. De resto, não pude mirá-lo por muito tempo, nem ao agregado, que, paralelamente a mim, erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. (...) Pádua, ao contrário, ia mais humilhado. Apesar de substituído por mim, não acabava de se consolar da tocha, e apenas mostrava a compostura do ato. (Os outros) não iam garridos, mas também não iam tristes. Via-se que caminhavam com honra”.

  • A palavra final de D. Glória
  • Bentinho vai para o seminário
  • Capitu se aproxima de D. Glória
  • Bentinho conhece Escobar
  • A visita de José Dias
  • A doença de D. Glória
  • A Ideia de Escobar que tirou Bentinho do Seminário
  • Livre do seminário, Bentinho vai a São Paulo estudar, tornando-se, cinco anos depois, o advogado Bento de Albuquerque Santiago. 
  • Bento e Capitu finalmente se casam.
  • Escobar  também sai do seminário, se estabelece no comércio e se casa com Sancha, a melhor amiga de Capitu.
  • Os casais se tornam muito amigos.
  • O escritório de advocacia vai bem e a felicidade era quase completa, se não fosse a demora em nascer um filho.  Isso é acentuado com o nascimento da filha de Sancha e Escobar, que recebe o nome de Capitolina.
  • Depois de alguns anos nasce Ezequiel.
  • Características de Ezequiel
  • O jantar e os planos de Escobar 
  • O que diz os olhos de Sancha
  • A morte de Escobar e a lágrima de Capitu (olhos de ressaca)
  • O discurso, a certeza do amor de Capitu por Escobar e a paternidade de Ezequiel
  • Uma xícara de café  e a separação
  • O reencontro com o filho e perde o filho
 CAPÍTULO CXLVIII: "E BEM E O RESTO?"
Agora , por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: "Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti". Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios.”

ANTROPONÍMIA EM DOM CASMURRO
O nome próprio, na condição de signo lingüístico, deve merecer o mesmo cuidado dispensado às demais unidades lingüísticas, especialmente no contexto literário.

Conceituado como elemento de individuação, o nome próprio designa um único objeto identificado num ato de fala. É a marca lingüística pela qual a sociedade toma conhecimento do indivíduo.



BENTO SANTIAGO - BENTINHO
Seu nome formado pelo radical de BENTO, acrescido do sufixo -INHO, o qual revela a afetividade de todos os que o cercavam. BENTO, forma divergente de Benedito, significa "louvado", "elogiado". Apresenta, assim, base adjetiva na etimologia do seu nome, desempenhando a função de determinante.

Santiago, como já explicado, é a junção de Otelo e Iago na personagem.


Acredita-se que o uso
da sua medalha concede
intuição para reconhecer
os invejosos e afastar as
pessoas sem caráter.
São Bento é invocado para proteger aqueles que sofrem qualquer tipo de magia. Além disso, sua oração e o uso da medalha destroem o poder do inimigo. Também ajuda a se livrar das calúnias. Acredita-se que o uso da sua medalha concede intuição para reconhecer os invejosos e afastar as pessoas sem caráter. 
"A Cruz sagrada seja a minha Luz.
Não seja o Dragão meu guia.
Retira-te Satanás!
Nunca me aconselhes coisas vãs.
É mal o que tu me ofereces.
Bebe tu mesmo do teu veneno."



CAPITOLINA - CAPITU

É hipocorístico de Capitolina, forma feminina de Capitolino, do latim Capitolium, "relativa a Capitólio".

Capitólio, do latim Capitolium, é o nome dado à colina de Roma onde estava situado o templo de Júpiter, divindade grega pertencente ao conjunto de deuses soberanos, que, em oposição aos deuses guerreiros, dispõem de meios mais eficazes de governar, de administrar e de equilibrar o mundo, usando como recursos o dom da arte e da astúcia, a capacidade de cegar, de ensurdecer, de paralisar os adversários e de arrebatar toda e qualquer eficácia de suas armas.
Vênus Capitolina

A forma latina Capitolium, por sua vez, provém de caput, "cabeça". 

Daí, considerar-se a base substantiva de formação do nome do personagem em questão e, desse modo, seu papel de determinado.




ESCOBAR

tem seu nome formado por conversão do substantivo comum a próprio e significa "plantação de vassouras". Metaforicamente, o substantivo comum vassoura relaciona-se à pessoa que troca muito de amantes ou de namorados, ou seja, "amante", "volúvel", ou ainda àquele que ganha sempre, ou quase sempre, em jogos de azar ou em sorteios; daí, "jogador", "vencedor". Aponta-se, por isso, a base adjetiva na etimologia do referido nome




EZEQUIEL
Ezequiel: Significa o que tem a força de Deus e indica uma pessoa que leva uma vida prática e construtiva, baseada sobretudo na força de vontade. Cada vez que se abre um caminho novo à sua frente, ele o percorre confiantemente, pois sabe que contará com apoio dos inúmeros amigos. 

O filho do homem morreu e foi enterrado em Jerusalém, onde teve o mesmo destino o filho de Deus.

A SUMA DAS SUMAS, OU O RESTO DOS RESTOS

A TERRA LHES SEJA LEVE...
VAMOS AOS EXERCÍCIOS!

E agora é a sua vez de participar do assunto com o Nave Literatura, vote na enquete e comente o porquê de sua resposta, enumere seus argumentos, etc.. 
Sua participação é muito importante para nós!

Capitu traiu ou não traiu Bentinho?
Sim, ela traiu Bentinho com Escobar.
Não, Bentinho é que é doido.
Ainda não tenho opinião formada sobre o assunto.






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